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Mesmo com o risco da própria vida…

by Flávio Henrique on 23/08/2010

- Alô.

- Flávio!? Você está trabalhando hoje?

- Não, por quê?

- Graças a Deus! Teve um tiroteio na cidade, daqui dava pra ouvir os tiros. Parece que levaram os policiais como reféns. Ainda bem que você não está aqui…

- Como é!? Tiroteio!? Policial de refém!?

- É, meu filho, mas ainda bem que não foi com você.

Começo a ligar para meus colegas de serviço. A primeira chamada não é concluída, telefone desligado. Insisto, minha mãe percebe que fico preocupado e passa a prestar atenção. Ligo novamente, desligado. Ligo para outro colega. Ele me atende.

- Levaram Rênio*, Cromo* e o sargento Germânio*!

Era outro policial que também estava de folga, mas a par dos acontecimentos. Ligo para o tenente.

- Tenente, o que está acontecendo?

- Tentaram roubar o banco, levaram os policiais. indo pra lá agora.

- Eu vou também!

- Isso, vá.

Rapidamente me apronto e sigo para a cidade. Chegando no local, a cena era perturbadora. Várias marcas de tiros nas paredes e nos veículos, uma mancha de sangue no asfalto, um carro abandonado no meio da rua, muitos curiosos sem entender direito o que se passou e incontáveis policiais. Nessas horas que a gente percebe que, apesar de todas as dificuldades e reclamações no serviço, ainda somos unidos. Como dizem, “a família é grande”.

Informações desencontradas. Foi roubo? Resgate de preso? Tentativa de sequestro no fórum? Quantos bandidos? Recebo a notícia que meus companheiros estão bem, foram liberados quase ilesos depois que o helicóptero localizou a viatura roubada, o que permitiu a soltura dos policiais. Um sargento atingido na coxa, um soldado ferido por estilhaços no rosto e o outro soldado com problema de pressão. O alívio é imediato, mas ainda fica o desejo de responder à altura tamanho atrevimento. Já nos empenhamos quando não estamos diretamente envolvidos, imagine quando sentimos na pele a audácia dos marginais. Assim segue a “caçada”, diligências por toda a região, barreiras, buscas pelo canavial, o cerco se fecha. O primeiro bandido finalmente é preso.

Pela noite, consigo falar com o soldado que teve o rosto lesionado. Ele me conta os momentos de terror. Disse que os bandidos renderam um companheiro ainda na calçada e depois atiraram contra o prédio em que ele e o sargento se encontravam. Melhor armados e em maior número, os vagabundos intensificaram o ataque, que foi prontamente revidado pelos dois PMs acuados. Pelo rádio, ouviu-se o apelo desesperado por socorro:

- CIOSP! PRIORIDADE! #$&%!*@! CIOSP!

Em meios aos ruídos de interferência e aos barulhos dos disparos, os demais companheiros sabiam que alguém precisava de apoio, mas ainda não sabiam quem. Silêncio no rádio… O soldado efetua novos disparos e grita mais uma vez em seu HT.

- CIOSP! PRIORIDADE! PAPA MIKE*!

Finalmente o som pode ser entendido e rapidamente todas as viaturas que ouviram o pedido de apoio se dirigiram até o local solicitado. Apesar de irem o mais rápido possível, na maior parte arriscando as próprias vidas em um possível acidente, parece pouco. Não demorou 10 minutos para a chegada do reforço, mesmo assim, foi demais para quem está na iminência de morrer. São segundos preciosos. E tempo suficiente para acontecer algo ainda mais grave.

Percebendo que os policiais não iriam se render, eles utilizam o PM dominado como escudo e com uma pistola apontada para a cabeça dele, ameaçam matar o colega caso os demais não se entregassem. E agora? Qual a garantia que eles não o matarão mesmo depois da rendição? Qual a garantia de que eles não matarão todos? Nenhuma, mas era preciso arriscar. O marginal promete a integridade dos policiais. “Nós só vamos ‘fazer’ o banco”.

No entanto, eles não esperavam que houvesse mais dois agentes penitenciários a poucos metros dali. Os agentes realizavam a escolta de um detento para uma audiência no fórum da cidade. Quando ouviram os tiros, não tiveram dúvidas em agir contra os bandidos. Atordoada, a quadrilha desiste do roubo, agora só interessa fugir. Como garantia de fuga, levam os policiais algemados e na própria viatura. Até serem localizados pelo helicóptero, como dito pouco antes.

Na madrugada, mais dois presos. Restava a investigação para pegar os outros membros da quadrilha. Identificação dos bandidos, depoimentos, relembrar tudo. Não podia fazer muito, apenas prestar solidariedade e apoio no que meus colegas precisassem. O abalo emocional deles era evidente. Enfim, o dia acaba. Mais uma vez, voltam para casa salvos.

Meus colegas me perguntam por que insisto nessa profissão, já que eu tenho outras opções. Sinceramente, não sei. Pensamos que é melhor fugir dos problemas, sem qualquer reconhecimento, que não é inteligente nos arriscarmos desse jeito. Também temos famílias, filhos, mães, irmãos, esposas, namoradas que sofrem e se preocupam com a gente. Mesmo assim, gosto de ser policial. Tento fazer o meu melhor, não vou pedir para sair, quero acreditar que posso fazer diferença. Afinal, já ouvi dizer em algum lugar que quando os bons se omitem, o mal prevalece. É um sacrifício que estou disposto a fazer, foi um juramento que eu fiz.

Essa não é uma obra de ficção, embora nomes e lugares tenham sido alterados por questão de segurança.

* Nomes fictícios retirados da tabela periódica e localização adaptada pelo alfabeto fonético.

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{ 10 comments… read them below or add one }

1 Jorge Moraes 23 August, 2010 at 5:17 PM

É companheiro, difícil explicar para as pessoas que amamos o que nos move, estas não entendem esta vontade de agir para proteger pessoas que não conhecemos, absorver problemas que não são nossos e ainda sermos mal vistos pela sociedade. Tal história retratada acima pode ser facilmente comparada com muitas que nós policiais já vivenciamos.. Belo retrato, só quem passou por situação parecida sabe o que sentimos quando a criminalidade investe contra qualquer um de nossos irmãos de farda. Que Deus nos proteja, como sempre protegeu. PM MS

2 Marcelo Pires CB BM 24 August, 2010 at 8:46 PM

Qual reação devemos adotar com o adiamento da votação da PEC 300, uma idéia.

Como estou feliz pela enorme banana que o Governo Federal e sua base na câmara federal deram para os trabalhadores da segurança pública de todo Brasil, inclusive eu claro! Explico melhor.
Depois de incontáveis manobras para adiar a votação da PEC 300, afrontando flagrandemente o regimento interno, recebendo pressão de milhares de policiais e bombeiros militares durante toda tramitação da PEC, desrespeitando requerimento assinado por centenas de deputados requerendo a inclusão na pauta de votação, tendo que informar ao poder judiciário um mandado de segurança impetrado contra a presidência da casa por ter suspendido a tramitação de uma proposta de emenda constitucional a popularmente conhecida nos circulos policiais como “PEC 300″.

Resta-nos agora lastimar, chorar, malidizer todos os políticos e dizer que todos são iguais e não prestam, que não tem palavra ou não respeitam compromisso. Não! guerreiros de primeira hora, devemos nos articular, mobilizar, e nos empenharmos de coração e alma nestas eleições.

Todos vimos, ouvimos, presenciamos e aprendemos que ter voz não basta, precisamos que ela seja ouvida e respeitada, para isto não há outra saída se não elegermos policiais e bombeiros militares, que conhecem, compreendem e vivem ou viveram nossa realidade, em seus mais variados aspectos, e insisto em acreditar que temos gente preparada e com este espírito em nosso meio.
Devemos começar a nos articular pelas redes sociais virtuais, usando e aplicando toda esta tecnologia para defendermos e dar publicidade as nossas idéias e propostas, e convocar a todos, do coronel ao soldado, do detetive ao delegado, enfim todos os trabalhadores da segurança pública para alinharmos e nos unirmos em torno de uma frente revolucionária democrática da segurança pública – FRDseg -, de norte a sul, do oiapoque ao chuí.
Para por meio desta grande frente poder apoiar e declarar nossos candidatos, mas de modo organizado e coletivo, para assim podermor iniciar uma nova legislatura com a composição miníma de uma frente parlamentar de defesa dos policiais e bombeiros militares, em âmbito estadual e federal, cuja responsabilidade suprema e absoluta será reverter o caos político, de abandono e desvalorização que se abateu sobre a segurança pública e seus trabalhadores, de que a muito se ressente a sociedade, em especial e diretamente os trabalhadores da segurança pública.

A insegurança e a desvalorização dos trabalhadores da segurança pública são irmãs gêmeas, mas temos como, se quisermos mudar esta realidade que atinge e avilta a dignidade dos trabalhadores da segurança pública e multiplica o medo, o pânico o terror da violência e da criminalidade.
O momento não poderia ser mais propício e adequado, temos um motivo importante, defendemos uma bandeira justa e legitíma, há um clamor social em crescente elevação, e temos uma capacidade organizada em todos os municípios brasileiros, que em sua grande maioria tem acesso a internet, e há meios para organizar um grande debate nacional com todos os candidatos militares e policiais em seus estados, e com os eleitores da família da segurança pública para unificar o discurso e disseminar um movimento nacional capaz de transformar este momento em uma ação libertadora na luta e defesa de nossa emancipação política.
Não devemos nos dispersar, precisamos superar vaidades, orgulho e os projetos pessoais de poder ou de grupos, e nos lançar sem hipocrisia na luta de defesa de nossa dignidade, porque não existe nada mais humilhante do que ser enxotado como cachorro de um lugar que todos chamam de, a casa do povo. Ou reagimos, ou jamais seremos respeitados.

Caso se interessem pela idéia e queiram comunicar-se conosco, nosso e-mail é cidadaniaedignidade@yahoo.com.br, assim poderemos trocar as primeiras impressões e estabelecer um discurso coeso, único e perssuasivo, para que todos possam colaborar, participar e decidir sobre nosso destino como organização e o futuro de nossa profissão.

Peço também a quem interessar que publique o artigo em seus blogs, assim um maior número de interessados poderão participar e expressar sua opinião ou idéia.

3 Marcelo Rib.'. 24 October, 2010 at 5:00 PM

Fico indignado em saber que o policia militar não possui benefícios do tipo: Ticket alimentação,planos de saúde,auxilio moradia,auxilio creche e outros benefícios mais…. Sendo “funcionário público” que o próprio nome já diz não ter direito a esses ou alguns desses benefícios, sendo que nos correios,funcionários de cia de água/luz(que nem func.público são)tem beneficios como tickte alimentação que ultrapassam 01 salário minimo por mês e a policia que dá um duro danado todos os dias,um serviço arriscado como esse ganham uma mereca,intitulo uma mereca quando fiquei sabendo quanto ganhava um soldado da pmerj nem chegava aos 1500,00 por mês,numa cidade como o Rio de Janeiro uma das mais violentas do país, PM se bobear passa fome isso é um dos motivos das corrupções creio eu.

Mas mesmo sabendo disso tudo sou candidato a cargo de soldado da pmerj,estou na 01ªfase aguardando resultados classificatórios e sonho é sonho né fazer o que. Estou me dedicando o máximo para em breve passar a fazer parte da PM e quem sabe até lá vão haver melhorias não somente no quesito salário mas melhoria na “policia” e teremos uma gratificação satisfatória onde possamos dar a nossas famílias um pouco mais alegrias/diversão,lazer etc… para isso basta sermos bem remunerados.
Passaremos a todos uma nova visão sobre a policia militar. Até lá!

4 bia 26 November, 2010 at 4:17 PM

Voces são nossos heróis!
Parabéns e obrigada por tudo!

5 Pedro 30 November, 2010 at 7:47 PM

Com muito orgulho, digo que prestei o concurso público para entrar nessa corporação tão honrosa que é a PMERJ. Para mim embora existam péssimos policiais existem sim ótimos policiais, o importante é valorizar aqueles que como eu entraram e entrarão com a vontade de fazer a diferença porque a cada 10 policiais safados, existem 100 que entram para mudar este quadro caótico em que vivemos, homens que deixam as familias de lado em casa, sem saber se voltarão para que possamos viver tranquilamente uma vida, muita das vezes de pura futilidade. Digo e repito sou apenas um concursado, mais ao ver a coragem desses homens tudo o que eu mais desejei do fundo do meu coração era estar lá com eles ajudando da melhor forma possível, OBRIGADO POR TUDO ( SE DEUS QUIZER ) FUTUROS COMPANHEIROS.

6 matheus 12 December, 2010 at 7:32 PM

eu odeio o cv e odeio os idiotas eu acho que devem apoiar a pec e votar sim eu sou filho de policial tenho 9 anos e acredito

7 isabela 15 December, 2010 at 11:30 PM

Eu acredito na Policia Militar acretido no seu trabalho, mesmo que mal remunerados .. existe bons policias no Rj.. e meu sonho é fazer parte dessa familia..Que Deus vos guarde.! Não somente o Rio de janeiro mais o Brasil em todo precisa de Herois como vcs’

8 carol 10 January, 2011 at 3:37 PM

nossos herois,que Deus sempre esteja do lado de vcs!

9 andre 14 January, 2011 at 11:02 PM

Amigos e irmãos, faço parte desta familia (PMPE) a 17 anos e mesmo assim me orgulho cada dia mais dela. Ora por ações isoladas de bons profissionais que nos enchem de orgulho, ora por ações conjuntas e eficaz da instituição que é maior que certos maus profissionais. E diferentes das demais atividades, sem desmerecer nehuma, é a única nos faz fazer efeitos como o mencionado no texto. Que Deus continue nos abençoando a todos.

10 Helio Soares Padilha 17 January, 2011 at 11:10 AM

Sou da RR da PMEP, já com 70 anos de idade, mas se pudesse começar de novo queria começar na PM novamente. Sòmente queria começar com a experiência que adquiri na vida policial e que levarei para o resto de minha vida. Servindo meus semelhantes com amor e respeito.

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