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Causos de polícia – Pena não, pau!

by Flávio Henrique on 24/09/2009

O texto abaixo foi publicado originalmente em meu blogue pessoal no dia 28 de outubro de 2008. Esta foi a primeira crônica lida pelo tenente Alexandre (criador daqui), motivando-o a acompanhar com mais atenção as minhas publicações (naquela época ainda dava para observar minuciosamente a blogosfera policial) e posteriormente me convidar para escrever por aqui. Lendo novamente, percebo que escrevia com mais emoção (raiva mesmo) e também constatei que minha imaginação era é muito fértil.

Pena não, pau!

Trabalho em uma pequena cidade com pouco mais de 20 mil habitantes, considerada pacata e com uma população acolhedora. Como em todo o Estado, o efetivo policial é pequeno, um número irrisório que se desdobra para conseguir suprir as necessidades da comunidade. Pense comigo: se na capital (onde existe a pressão/fiscalização da imprensa) faltam policiais para cobrir toda a demanda, imagine então a situação dos municípios de menor importância para o Estado. Dessa forma, fazemos o que está ao nosso alcance, até gostaria de contribuir mais, contudo as porradas que já tomei na PM me ensinaram que para sobreviver lá dentro a primeira regra é não “querer demais”, entenda como quiser…

O dia estava tranqüilo, ainda bem, afinal éramos apenas dois homens para vigiar a pequena Delegacia da cidade – com pouco mais de dez detentos – e ainda atender os eventuais chamados da população. Como atender as emergências em tais condições? Na PM há jeito para tudo. Aliás, jeito não! Jeitinho… O bom e velho jeitinho brasileiro é aperfeiçoado na polícia. É isso ou você não dura um dia. Assim, sempre que precisávamos nos ausentar da Delegacia para alguma ocorrência recorríamos a um dos presos. Um senhor de meia idade, que após tanto tempo no ambiente já gozava de certa confiança e dispunha de regalias que os outros não tinham, tais como livre circulação pelo prédio e até mesmo pequenas concessões de “liberdade provisória”. Em troca, ele ficava de plantão sempre que fosse preciso, atendendo as ligações ou operando o rádio (atividade que realizava até melhor que outros policiais). É o chamado preso de confiança. A solução é dar-lhe crédito. Que outra alternativa se tem?

No início ficamos revoltados, depois nos acostumamos e sem perceber já estamos rindo da própria desgraça. Rir é o melhor remédio, brasileiro adora rir de desgraça (inclusive da própria), e no país da piada pronta motivo não falta. E se faltar, a gente inventa. Por isso, considero o meu ambiente de trabalho até agradável, quer dizer, ao menos consigo dar boas gargalhadas com as presepadas que antes de entrar na Gloriosa jamais pudesse imaginar que fossem possíveis.

Desculpa te enrolar tanto para chegar aonde quero, mas é difícil ficar limitado a uma só história quando se fala da PM. Como dizia no início, estávamos eu e outro soldado indo atender a mais uma ocorrência sem futuro. Uma mãe revoltada nos pedia para que fôssemos até à sua residência acalmar seu filho, que estava quebrando tudo dentro de casa e ameaçando seus familiares com uma faca peixeira. Provavelmente ele estava tendo uma crise de abstinência, pois exigia dinheiro para comprar crack e estava visivelmente transtornado.

Autorizados pela mãe, entramos na residência e, em meio aos destroços dos móveis e demais objetos espalhados pela sala, iniciamos o diálogo na tentativa de persuadí-lo. Em vão! Primeira tentativa frustrada, mas a conversa resolve 90% das ocorrências e continuamos a gastar saliva. A essa altura o nível de estresse tanto do perturbado quanto o nosso já era alto e a atenção redobrada . Foi quando de supetão o maluco parte contra mim com a faca em punho (aliás, sempre sou premiado, deve ser por causa do meu 1.70m). Instintivamente, eu e o outro soldado utilizamos o bastão para nos defender até conseguirmos dominá-lo. Não durou cinco minutos, mas a sensação é que dura muito mais tempo, a julgar pelo desgaste físico depois. Como tudo foi muito rápido não sei como escapei ileso, acredito que só tenha conseguido responder à ação por ter mantido uma distância segura do noiado. Não vou negar que exagerei na dose do “calmante”, nessas horas é díficil não ser passional e se exceder, pior para ele que não nos escutou. A mãe também estava revoltada mas para minha surpresa não ficou contra nós. O que, pasmem, geralmente acontece nesses casos.

- Dê uma surra nesse caba de pêia!

A que ponto aquela família chegou. Sequer a mãe tinha compaixão pelo vagabundo. Ela não sentia pena, não era nós que sentiríamos. Isso somente no calor dos acontecimentos. Na volta para Delegacia, com a cabeça fria, comentava com meu colega sobre essa tristeza, que me sensibilizara, que a droga é uma merda mesmo, o crack então a pior de todas… Perguntei-lhe se não sentia pena (da mãe, é claro) quando ele responde secamente:

- Nessas horas eu só tenho pena é do bastão!

Atenção! Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos, lugares e pessoas terá sido mera coincidência.

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{ 2 comments… read them below or add one }

1 Eduardo 25 September, 2009 at 7:12 AM

01 você foi muito mau…

Estou brincando. Eu sou uma pessoa muito favorável a NÃO negociação com marginal. Uma coisa é bater carteira, outra é colocar em risco a vida de pessoas (civil ou policial). Sempre fui muito favorável ao uso da força quando a conversa não resolve.

Não funcionou 5 minutos de conversa? Manda o cacetete no lombo. Tem uma faca e esta ameaçando? Manda tiro nas pernas e toma-lhe a faca. Tem uma arma com refém? Abater o marginal enquanto tiver reféns na mira de arma.

NÃO, eu não acho que bandido deve ser sempre morto. Não, eu não sou a favor da pena de morte. Ao contrário, acho que ele deve sempre ser preservado quando não representar mais ameaça. Se entregou, que a lei se encarregue dele. Mas acho que devem mudar a lei e ao contrário de Lula, não acho que deva ser permutado educação x presídio. Acho que os dois devem ser construido. Quem não quiser seguir a lei, precisa saber que tem onde ficar.

2 Sacos Valvulados 3 September, 2010 at 4:14 PM

BOA A MATERIA

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