Logotipo

Profissão polícia: dedicação integral

by Flávio Henrique on 14/07/2009

O texto a seguir me foi enviado via e-mail por um leitor assíduo do Diário de um PM. Na verdade é mais um comentário alusivo ao post anterior. Resolvi publicá-lo (incluindo minhas considerações), pois talvez outras pessoas tenham a mesma impressão e dúvidas sobre a polícia.

Entrei no Diário de Um PM (como faço quase que diariamente) e me deparei com uma postagem do Flávio Henrique se referindo ao blog do Capitão Mano, onde o mesmo lista 5 razões para detestar ser policial militar. Eu como civil estudando para concurso da PM é bom ver em blog o cara vibrando enaltecendo a corporação, mas é sempre bom ver o outro lado da moeda, principalmente mostrado por quem está dentro da caserna. Lendo o post do Capitão Mano me deparei com a razão número 2 e resolvi escrever sobre ela:

Razão DOIS: o povo. A relação da polícia com o povo é como uma faca de dois gumes. Alguém sempre sai perdendo nesse embate. Em meio à população, há de tudo: pais de família, trabalhadores, homens de bem, pessoas de boa índole, estudantes, menores, grupos vulneráveis, doentes e incapazes, e os que reúnem um pouquinho de tudo. Ao que parece, só não tem bandido. Todos, na intenção de demonstrar sua indignação, gritam aos quatros cantos do mundo que não são isto, não são aquilo ou que são assim ou daquele jeito. À polícia cabe a ação. E, se ela não age, erra pois foi chamada para agir e, se não ia fazer nada, para que foi até lá(?); se age, erra também porque exagera. Se não ia dar flores, também não precisava ser grosseiro(!). É chamada para controlar. E quando controla, aparecem especialistas de todas as brechas para criticar. O povo está quase sempre contra, pois é do seu meio que provém toda a mazela da vivência humana. E, quem quer ser a mazela? Quem admite ser pai, mãe de uma ou ser a materialização da mazela? Quem quer ser a ‘pessoalização’ do que é ruim no meio social? Daí a se compreender o porquê da relação pífia entre polícia e sociedade…

Não vou escrever um post utópico aqui falando que a Polícia tem sempre razão que é tudo as mil maravilhas pois não é, a Polícia é um trabalho como outro qualquer você vai entrar vai ter momentos de alegria, de frustração, vai ter vontade de chutar o pau da barraca, é uma relação amor e ódio. Mas caro leitor acompanhe meu raciocínio nesses casos:

1° Caso: Uma vez entrei na comunidade da PMMG no Orkut e tinha um desabafo de um pai de família contando que pegou seu carro, colocou dentro sua esposa, seus 2 filhos e sua sogra, foi rumo à Belo Horizonte fazer turismo. Na cidade foi parado por uma blitz da PM onde a mesma constatou que o documento do seu carro estava irregular. Seu carro foi apreendido, ele ficou ali com a sua família na sua, e durante 1 hora a PM não parou mais nenhum veículo. Conclusão do pai de família a PM estava errada, o pai de família andando com o documento irregular não estava errado.

2° Caso: Um jovem de aproximadamente 22 anos, saiu com sua namorada e seus amigos, parou num barzinho, curtiu uma música ao vivo, comeu uma porção, bebeu sua cervejinha (afinal todos ali trabalham durante o dia e fazem faculdade a noite). Voltando para casa foi parado numa blitz, pelo teste do bafômetro foi constatado que o nível de álcool no sangue dele estava acima, o condutor tomou aquela multa salgada de quase mil reais, teve a habilitação apreendida. O PM ainda perguntou se alguém estava com o álcool no sangue abaixo do permitido para assumir a direção, como não tinha, o carro foi apreendido. O condutor se exaltou, agrediu o policial verbalmente (quase o agrediu fisicamente). Conclusão, a PM estava errada por cumprir a lei seca.

3° Caso (Esse aconteceu comigo): Como eu disse anteriormente a polícia não é um mar de rosas, mas veja esse caso que aconteceu comigo. Estava eu saindo do meu trabalho no meio da tarde voltando para casa feliz pois tinha sido transferido para um setor melhor. De repente sinto um vulto de um cara de bicicleta vindo do meu lado abri espaço para ele passar mas ele não passa. Para ao meu lado saca um revólver 38 e pede meu celular. Claro que eu entreguei o celular sem esboçar nenhuma reação (nesses momentos é melhor, vai que o cara está com a arma só para assustar e no susto dispara. Eu não vou perder minha vida por causa de 200 reais.). Assim que entreguei o celular sai correndo ao som das ameaças do assaltante. De repente eu vejo uma Blazer da Polícia Civil, linda toda imponente parada na rua, parecia que tava me esperando.  Já cheguei falando para o policial que eu tinha sido assaltado e o sujeito estava armado, e sabe o que ele me disse “to fora da minha área, se vira e liga pro 190”.

Na minha mera concepção de civil o polícia independente de ser civil ou militar ele trabalha para o Estado, então a área de atuação dele é o Estado e não somente a jurisdição do seu Distrito ou Batalhão.

Eu confesso que depois dessa “patada” eu fiquei decepcionado com a Polícia, mas ainda não desisti do meu sonho. Acredito que a fama que a Polícia tem é muitas vezes criada pelos próprios policiais que estão ali vivendo frustrados dentro de sua carreira, entraram achando que era uma coisa mas virou outra, e essa frustração acaba passando para o cidadão. Mas mesmo assim eu não desisti desse objetivo de ser policial. Pois pra mim vai ser a minha maneira de fazer a diferença na sociedade.

Abraço, Bruno Henrique.

De antemão, agradeço pelo email e espero contribuir para que tome sua decisão corretamente, pois apesar de ser um trabalho difícil eu não me arrependo de ter me tornado um policial.

Sobre as duas primeiras situações apresentadas posso dizer o seguinte: ninguém quer que a polícia cumpra a lei quando se é o infrator. Isso é lógico. Alguém que está irregular e persiste em ignorar seus deveres terá grandes chances de ser pego, é o que preconiza a Lei de Murphy. E algumas pessoas, mesmo conscientes de seus erros, ainda se sentem injustiçadas e/ou perserguidas. Uma frase que ouço com frequência é que “polícia por perto incomoda e longe, faz falta”.

Já no terceiro caso houve omissão sim por parte dos agentes do Estado. Para explicar o porque, recorro ao Código de Processo Penal.

Art. 301. Qualquer do povo poderá e as autoridades policiais e seus agentes deverão prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito.

Em resumo, pode-se dizer que policial é policial 24 horas, independente de estar de folga ou fora de sua jurisdição. Quando ocorre uma omissão (principalmente por agentes caracterizados) não há apenas uma trangressão legal, mas também uma péssima contribuição para a imagem da polícia que recai na influência negativa dos maus profissionais e é quase certo que se generalize em torno desse estigma. No entanto, ao invés de guardar somente o exemplo negativo lembre dos homens que se sacrificaram (mesmo sem estar de serviço) para ajudar o próximo ao se depararem com bandidos nas nossas inseguras ruas. Uma rápida pesquisada no Google e verá que existem reportagens que mostram policiais sempre dispostos a ajudar o próximo.

Então caro leitor, esse espaço também é seu e caso deseje compartilhar suas ideias conosco fique a vontade.

Promoções do dia na Super Loja DPM:

Posts Relacionados

{ 8 comments… read them below or add one }

1 Guigo 16/07/2009 at 12:00 PM

E vai eu comentar aqui!!

Não falei isto uma, duas ou três vezes, mas várias. A justiça humana é falha. É bom saber que ainda existem sujeitos que acreditam que a humanidade tem salvação. Eu mesmo estou tentando resgatar este tipo de ideal, mas ainda assim vejo as velhas manias humanas escancaradas e ofuscando o que existe de melhor em nós.
Com certeza, em todas as situações, eu disse todas, nós pensamos primeiramente em nós, no nosso bem estar, em nossa situação, independente de estar errado ou não. Depois é que ponderamos se a razão está ou não do nosso lado. Que é uma outra história, pois o cara pode pensar em si mesmo, estar errado, mas ainda assim querer estar certo (compliquei?).
Agora falo por aquilo que vejo e não pelo que conheço. A justiça humana é fraca demais, até mesmo os nossos conceitos muitas vezes vão e vem quando nos deparamos em determinadas situações. Ninguém de fato sabe o que é certo ou o que é errado, encontramos no meio da legislatura nacinal, uma forma coerente de enxergar as coisas, mas não é a forma certa. Por isso existem milhares de advogados defendendo pessoas de péssimo caráter e encontrando brechas nesta mesma legislação, favorecendo o seu cliente.
O humano precisa aprender a viver em comunidade – comum/unidade – visto que, enquanto estamos parados, olhando para o nosso umbigo, o mundo continua girando.
Infelizmente nestas voltas que o mundo dá encontraremos pessoas que ainda cultivam a boa vontade e outros que nem sabem porque foram parar ali.

Falei demais!!!

2 adailton gonzaga 17/07/2009 at 1:38 PM

Valeu amigo, policial tem que ter vocação, sangue de polícia correndco 24 horas nas veias e vestir a camisa da instituição, estou na polícia há 21 anos, já fui PM, Agente de Polícia Civil e Delegado Comissionado na Paraíba e hoje sou Agente de Polícia no RN, mas amo o que faço e o meu forte na Polícia é o trabalho Operacional, é estar nas ruas combatendo o Crime e servindo a sociedade, que Deus abençõe os bons Policiais do nosso País.

3 Marlon Marx de Castro 18/07/2009 at 3:41 PM

Sou policial militar da gloriosa Minas Gerais e quando vejo pessoas comentando ou escrevendo artigos como esses vejo que ainda existem pessoas idôneas e sensatas em meio a sociedade como a caro amigo Bruno Henrique, mesmo não sendo “ainda” um policial militar é sabedor de como é árduo o trabalho da PM em um País como o Brasil, onde o normal é ser um fora da lei, onde o cidadão que trabalha o dia inteiro se acha no direito de sair do serviço e tomar só uma cervejinha como dizem, e quando é parado em uma blitz e é pego pelo bafômetro, virá para o agente que esta ali para fazer a lei ser cumprida e diz: “eu não sou vagabundo, trabalho o dia inteiro e só tomei uma cervejinha para aliviar o stress”, mas se esquecem que ali também esta um trabalhador, que às vezes da a sua vida em prol dos outros. E quando este agente do Estado toma as medidas cabíveis pela lei, ele sim esta errado e o Sr. cidadão esta correto em beber “só uma cervejinha” e sair por ai cometendo assassinatos em massa.
É como o dito popular: “pimenta nos olhos dos outros é refresco” imagina se um familiar deste mesmo cidadão e morto ou atropelado por uma pessoa que tomou “só uma cervejinha” será que ele vai querer que o agente do Estado não tome as medidas cabíveis?? “”Afinal esta pessoa pode também não ser um vagabundo e ter trabalhado o dia inteiro e só tomou uma cervejinha para aliviar o stress”" Então antes de questionar o serviço da polícia, pense antes se estar errado ou certo, se esta agindo de acordo com a lei ou esta de encontro a ela!!!

4 Juliana Maciel 19/07/2009 at 1:30 PM

Caro Flávio, confesso q eu odiava abrir o Diário de um PM e encontrar um post seu. Pq toda vez q eu terminava de ler um post, me sentia enojada por querer ser PM. E foi esperando ficar com raiva de vc outra vez q li o seu último post intitulado “Profissão polícia: dedicação integral”, e resolvi te pedir desculpas.
Os comentários e destaques seus foram convenientes e muito bem escritos. E me fez reler todos os posts antigos, e finalmente entendi a essência de todos os seus textos, a polícia é o reflexo da sociedade.
Sou careta, não bebo, não fumo, não tenho gato de luz, internet, nem de tv a cabo, nem cds e dvds piratas. Aqui em casa, fazemos questão de pagar o IPVA e IPTU em dia. Pode parecer atitudes bobas para um país q se acostumou em arrumar um “jeitinho” pra tudo. Mas só podemos cobrar honestidade qd a praticamos.
Parabéns! E desculpa, mais uma vez.

5 Rodrigo Viana 31/07/2009 at 9:56 AM

O Estado precisa de mais exemplos bons na corporação, é gratificante saber que temos pessoas que acreditam na PMERJ!!!
Parabens à todos, juntos somos mais fortes e com certeza podemos mudar essa visão que a população têm da Polícia Militar!!!

6 Flávio Henrique 31/07/2009 at 6:54 PM

@Juliana Maciel Fiquei surpreso por despertar esse sentimento em alguém, estranhei esse fato. E pode ter certeza que se eu criticar algo relativo à polícia é porque estou querendo que ela melhore. Nem precisa se desculpar, se foi essa a impressão que você teve, paciência…

Agora você captou bem meu raciocínio, muito do que criticamos nas polícias também acontece em outros segmentos da sociedade. Entenda que isso não justifica o fato de existir agentes corruptos, apenas é uma das explicações. Infezlimente sofremos uma forte influência da “cultura do malandro”, onde pregam que devemos tirar vantagens em tudo. Quem não o faz, é chamado de otário. Para finalizar, sugiro a leitura de um texto da Elisa Lucinda recitado pela cantora Ana Carolina em seu disco com o “Seu Jorge”.

Só de sacanagem

7 Eliana Gerânio Honório 02/08/2009 at 7:21 PM

Felicidades!

8 Julio Terra 12/08/2009 at 12:27 PM

No campo legal, qual o tratamento deve ser dado ao policial envolvido em casos de corrupção e/ou resolução de conflitos de forma arbitrária?

Leave a Comment

Previous post: “Contra” tudo e todos

Next post: Da segurança para a educação