Como reconhecer um pseudo-especialista em segurança pública
Quem dá a dica para reconhecê-los é Décio Leão, capitão da Polícia Militar de São Paulo. Em seu irônico “Manual EPC (Embusteration Picaretation Corporation) para Especialistas em Segurança”, mostra os “fundamentos necessários para a atuação desses consultores de ocasião”.
O pseudo-especialista em segurança pública é um profissional que goza de grande respeito, aparece na mídia, faz assessoria dos nossos governantes e até interfere no trabalho da polícia. Algumas vezes eles conseguem até elevados cargos públicos. Segundo Décio, os pseudo-especialistas em segurança pública trazem consigo algumas caraterísticas em comum:
- Nunca foi policial, não tem nenhum vínculo com a Instituição ou não mesmo a conhece. Isso não impede que ele fale dela com propriedade, dizendo como ela deveria fazer seu trabalho.
- Possui formação genérica. Seja engenheiro, administrador, economista, sociólogo, psicólogo ou bacharel em direito, o pseudo-especialista em segurança pública já estudou “profundamente” o assunto e participou de alguns seminários.
- Aparece bastante na mídia. O pseudo-especialista em segurança pública não pode deixar de aparecer na mídia, quer seja imprensa escrita, falada, televisionada ou internetada. Não se mede a qualidade deste profissional pela sua experiência profissional ou sua formação específica. É a quantidade de vezes que ele aparecer na imprensa que irá dar a sua qualificação de suposto conhecimento e experiência.
- Fala o óbvio. O especialista em segurança costuma ter soluções mágicas para solucionar o problema da segurança pública (bem semelhantes aos discursos eleitoreiros para o assunto). Por exemplo, o especialista em segurança deve afirmar que as autoridades policiais precisam “intensificar o policiamento preventivo” ou “investir em inteligência policial”. Quanto mais óbvia for a solução mágica, melhor será o efeito “como-ninguém-pensou-nisso-antes”. E obviamente, o especialista não precisa dar detalhes sobre como serão conseguidos os recursos humanos, materiais e financeiros, qual o impacto sobre o orçamento e outros problemas que “são meros detalhes técnicos”.
- Faz a polícia parecer incompetente. Ao comentar os problemas de segurança, as crises e os problemas em ocorrências policiais, o pseudo-especialista em segurança pública mostra como a polícia errou, o que ela deixou de fazer e o que ela poderia ter feito. Sutilmente, dá indicações de a polícia não sabe fazer bem o seu serviço.
- Não tem responsabilidades. O pseudo-especialista em segurança pública não precisa se preocupar com o que fala, pois não tem que tomar decisões, não tem responsabilidades, não é cobrado pelos seus resultados. Se seu projeto der certo estará comprovada sua genialidade, se der errado sempre há alguém para culpar, principalmente a Polícia Militar e a Polícia Civil, que não se empenharam corretamente em suas obrigações para fazer dar certo o magnânimo projeto do especialista. Essa é uma das maiores vantagens de ser um especialista em segurança pública. Por mais absurda que seja a idéia, ele não é responsável pelo “como” ou “quão custoso” será sua aplicação, muito menos as conseqüências do fracasso.
Eis algumas frases que podem ser usadas pelos pseudo-especialistas em segurança pública iniciantes. Mesmo já tendo sido usadas anteriormente, essas frases-padrão representam o discurso que se espera de um bom especialista:
“A conjuntura macroeconômica da globalização desenfreada tem impactado sobre a sociedade marginalizada, forçando uma busca por recursos alternativos nem sempre éticos com a legalidade”.
“A polícia precisa urgentemente investir em policiamento preventivo e em inteligência policial”.
“Os capitães comandantes de companhia e os delegados titulares de distritos policiais devem se reunir periodicamente e detectar onde e quando estão ocorrendo os delitos. Com essa informação, o policiamento deve ser direcionado para os locais de maior incidência criminal”.
“A crise de segurança ocorre porque a polícia não está fazendo o seu papel. Os policiais civis não fazem o preventivo e os policiais civis não investigam.”
Veja mais pérolas da segurança pública nos chavões dos discursos eleitoreiros.



Muito boa Matéria Alexandre!
Até dia 29 vou escutar muitos pseudos …. na tv, no rádio, na rua e vou me lembrar dessa matéria, ahahaha, tem que rir pra não chorar.
Abraço.
É verdade Dion, mas não é só em época eleitoral que eles aparecem, antes fosse. Toda vez que ressurge uma questão de segurança pública na mídia, como rebeliões em presídios, atentados ou chacinas eles parecem proliferar. Pelo menos sabemos reconhecê-los!
E o que é mais preocupante é que um desses “pseudo-especialistas” , após o dia 29/10 irá escolher os futuros gestores das policias dos Estados, geralmente com o mínimo de critério técnico e com o MAIOR critério político. Mas, o bom combatente não deve esmorecer nunca, não deve se calar perante a voz dos incompetentes, afinal, os homens passam, os ideais ficam e o exemplo marca para sempre.Apenas citando Martin Luther King: “o que me incomoda não é o grito dos violentos, mas o silêncio dos bons”
Parabéns pela opinão concreta, real, franca e prudente. Espero que outros tenham oportunidade de conhecê-la e espurgar esses “charlatões” que se intitularizam de “especialista em segurança pública”. Você apresentou a real verdade dos fatos com bastante propriedade. Abraços.
Quero entrar no Bope meus numero e (19)97064284 COM Ricardo.
Excelente matéria!
Só precisa ser veiculada nos mais variados meios de comunicação para acabar com a palhaçada irresponsável dos “policiólogos” de plantão! Tirem o traseiro de suas cadeiras confortáveis e de seus aparelhos de ar condicionado, seus livros empoeriados, coloquem um equipamento e VÃO PRENDER ALGUÉM! Se gostam tanto da polícia, por que não fazem concurso?
Fiquei surpreso com o post, sou bombeiro militar paranaense, e recebemos há pouco tempo a visita de uma figura que corresponde a todos os pré-requisitos de “picareta”, “pseudo-especialista”… Ouvimos todo o texto relacionado, e ainda mais, que você sabe, é de praxe:
- É necessário acompanhamento psicológico do policial militar;
- A “problemática” dos serviços informais - os bicos - na área de atuação;
- O serviço preventivo, e melhor orientação à população;
- O uso de técnicas com eficácia comprovada em outros países (!?!?!?), deve ser explorado.
Enfim, um indivíduo que não sabe realmente o peso de uma farda.
Detetive profissional,especialista en segurança publica,deveria ser valorizada a figura do agente de segurança comunitária.