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Milicianos e Traficantes: bandidos são todos iguais?

Daqui a pouquinho, quando as pessoas estiverem acordando e eu estiver indo dormir, milhares estarão estarrecidos com a notícia do Jornal O Dia desse Domingo (31-05-08):

Uma repórter, um fotógrafo e um motorista do Jornal O DIA foram seqüestrados e torturados pela milícia da Favela do Batan, em Realengo, na Zona Oeste do Rio, na noite de 14 de maio. A equipe fazia uma reportagem sobre a vida de moradores em regiões controladas por milicianos, conforme relata em detalhes matéria na edição deste domingo, 1º de junho, de O DIA.

Você pode ler todo o suplício pelo qual a equipe passou aqui. Impossível não se lembrar do caso Tim Lopes, que está prestes a completar 6 anos. Tim Lopes, repórter da TV Globo, investigava denúncias de venda livre de drogas e shows de sexo explícito com menores em bailes funks na Vila Cruzeiro. Foi descoberto pelos traficantes e levado para o alto da Favela da Grota, onde sofreu atrocidades e teve a morte decretada. Um exemplo de milicianos e traficantes com o mesmo modus operandi de “política de terror”.

Lembro que em dezembro de 2006 foi o primeiro grande interesse da imprensa em torno das milícias. Só se falava nisso. À época, as contribuições inovadoras na discussão eram justamente as que iam de encontro ao que ela fazia: diferenciar milicianos e traficantes. Assim fez o prefeito César Maia, o Tenente Coronel Mário Sérgio e eu também fiz aqui no blog. O Tenente Barrim citou hoje mais diferenças e fez uma excelente análise, sem rodeios, do que teria motivado a barbárie contra a equipe de reportagem.

Mais uma vez, a imprensa vai tratar não só milícias e traficantes como sendo a mesma coisa, como deve transformar tudo em milícia. O grupo que subjuga a comunidade e cobra taxas é milícia, o que faz segurança particular nos comércios é milícia, até o policial que mora e protege seu quarteirão agora é milícia.

Insisto pela diferenciação porque problemas diferentes exigem soluções diferentes. Porque será que agentes da lei se corrompem? Porque será em troca de dinheiro se igualam aos bandidos que se prestavam a combater? Eu começaria a refletir sobre salários, política de segurança pública, valorização do profissional e o perfil de profissionais que estamos atraindo para nossas fileiras, justamente por falhas nessas áreas.

About the Author

Alexandre de Sousa

Criador do Diário de um PM, Tenente da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Tem 24 anos de idade e 4 anos de carreira.

18 Responses to “ Milicianos e Traficantes: bandidos são todos iguais? ”

  1. Opa Alexandre!

    Estava esperando a blogosfera policial se pronunciar mesmo… eu escrevi um texto, mas o deixei como rascunho e talvez nem venha a publicar… melhor deixar a raiva passar

    Pessoalmente não vejo nenhuma diferença entre traficantes e milícias! Ambos agem por interesses próprios (e não comunitários) e visam tão somente lucros pessoais.

    Quando a única motivação de um grupo e ganhar dinheiro e poder, valores como vida, liberdade, justiça, civilidade vão pro ralo. E a barbárie vira o lugar comum!

    Milícia é banditismo e barbárie, assim como o tráfico! Estão no mesmo saco!

    Este caso lamentável só desmascara os fatos: Milícia é tão banditismo quanto tráfico. Com o agravante de ser uma metástase que se espalha para dentro do sistema de segurança pública!

    O pior de tudo, é que pelo andar da carruagem, tenho dúvidas se há salvação para o sistema…

    Não estou falando só de quadrilhas chefiadas por secretário de segurança… mas da banalização do enriquecimento ilícito de “policiais”, de ações rotineiras fora do estado de direito, de, pasmem, polícia matando polícia (que dirá quem não é polícia!) por disputas de “áreas de atuação”, etc…

    Poderia falar de muitas outras coisas concretas… mas o bom senso me diz para parar por aqui.

    Momentos tristes (e temerosos!) para o cidadão Carioca!

  2. Sérgio, você tem razão, são iguais nas coisas que citou.

    Mas não são iguais em tudo. O que me preocupa é colocarem tudo no mesmo saco e cair no discurso vazio, sendo que problemas diferentes ensejam soluções diferenciadas.

    Por exemplo, sabemos que os integrantes das milícias em geral são agentes públicos de segurança. Ou seja, tem matrícula no Estado, tem nome, arma registrada, etc. A prisão deles passaria por incursões policiais e troca de tiros? Ou investigação e corregedoria eficientes?

    Ou seja, são todos bandidos, agem por interesse próprio, pelo lucro, com o poder sobrepondo-se aos valores humanos básicos, adeptos à barbárie. Isso é verdade! Mas depois que constatamos as semelhanças, o que vamos fazer, além de dizer “é tudo igual”?

  3. Opa Alexandre!

    Eu não tenho clareza sobre o que fazer, devo confessar! E concordo que só palavras não resolvem o problema!

    Talvez uma força tarefa, com agentes do ministério público, judiciário, policiais federais (ou de outros estados) . Essa força tarefa tem atuar de modo que que prisões, investigações (com amplo direito de defesa) sejam feitas em tempo recorde, doa a quem doer. Se for deputado, que se casse, quebre sigilo bancário, telefônico…

    Se for ex-governador, que se atue do mesm jeito, se for comandante de batalhão que seja exonerado e durante o processo seja “isolado” das estruturas de influência…

    Tenho um colega que é perito e diz o seguinte. Se o cara não tem nada a perder entrando para esquemas criminosos, fica mais fácil se corromper… então, além disto tem que existir uma política salarial, de treinamento e formação a altura, para que os bons policiais não se envergonhem ou se intimidem pelos maus!

    Como se vê, é necessário uma ação pública forte e contundente… temo, que nosso governador, não tenha coragem nem envergadura para tomar as medidas necessárias.

    Para o mal de todos nós, infelizmente!

    Grande abraço

  4. Sérgio, você falou muito bem, vontade política.

    Mas o que esperar das autoridades públicas que por 40 a 15 soltam Álvaro Lins? Como combater as Milícias quando “autoridades públicas” beneficiam-se delas? É máquina de dinheiro, é curral eleitoral.

    Já era previsível que com poder e dinheiro chegaríamos a esse ponto… como um câncer, chegou aonde está.

    Deus salve o Rio!
    Abraço

  5. Policial Militar do Rio de Janeiro é “herói”, não só por enfrentar a criminalidade (violência dos marginais), mas também por ter que atuar num Estado cheio de corrupção onde os criminosos usam “terno e gravata” (os verdadeiros bandidos estão no poder). O vagabundo que está no morro só existe por causa da corrupção dos políticos. Infelizmente o povo não sabe escolher os seus representantes. Quase ninguém na ALERJ presta (a grande maioria dos Deputados)!

  6. É preferível ter Milicianos do que Traficantes na comunidade! Eles existem porque o sistema de segurança pública não funciona, pois o Governo do Estado do RJ sequer paga dignamente os Militares de Polícia (Cabral tem a 2ª maior arrecadação, mas paga o pior salário do Brasil).

    Com uma Polícia Militar muito mal paga e insatisfeita, não há projeto e comando que resolvam. Sem investir nos profissionais de segurança, não haverá resultado positivo… O povo tem que aprender a “votar nulo” quando não tiver ninguém para votar!

  7. O desgovernador Sérgio Cabral não está preocupado com a segurança pública no Rio. Em 12 anos, o PMDB está acabando com a cidade maravilhosa (Garotinho, Rosinha e Cabral)!

    OBS: O CRIME ORGANIZADO COMEÇOU A CRESCER NO DESGOVERNO BRIZOLA, QUE PROIBIU A POLÍCIA MILITAR DE FAZER O SEU TRABALHO!

    FORA CABRAL, FORA BELTRAME, FORA CEL PITTA E CADEIA PARA ESSES 55 DEPUTADOS CORRUPTOS!

    DOS 60, SÓ 15 VOTARAM CORRETAMENTE (40 SE ENVOLVERAM E 15 SE AUSENTARAM)!

    “A COISA ESTÁ PRETA”. SÓ REZANDO, E MUITO!

  8. CORRIGINDO
    ONDE SE LÊ: 60
    LEIA-SE: 70

  9. Mais uma vez esbarramos na questão do salário e da Política de “Segurança” Pública.

    O Mostro que está sendo criado pelo governo da corrupção e do caos está cada vez maior… E uma hora será inevitável conter esse monstro que, possivelmente e como reza a lenda, se voltará contra seu criador; e aí não adianta a imprensa chorar, a sociedade chorar ou o governo chorar.

    Só vai ter um jeito, lembra o que nossos governantes faziam na época do regime militar quando a “coisa” fedia??? Vai ser hora de voltar ao exílio… Em Paris, Mônaco, Milão, Londres… “Que coisa”.

  10. Penso seriamente no exílio… o último a sair apaga a luz.

  11. Prefiro 1000 vezes milícia do que o tráfico.
    Tenho vários amigos que moram no batan e todos só falam bem da milícia.

    Quando era dominada pelo tráfico ninguém ficava na rua a noite, as guerras eram constantes, quase toda semana morriam inocentes, sem contar as humilhações que os moradores eram submetidos por traficantes e até mesmo moradores do fumacê.
    Desde que a milícia chegou começaram a abrir barracas de cachorro-quente, hamburger… As pessoas podem ficar na rua até mais tarde, acabaram as guerras, não tem mais viciados se drogando na rua, acabaram os funks que fazem apologia as drogas, as crianças podem ficar na rua brincando tranquilamente…está tudo uma maravilha !

    Agora, entro no odia online e sou obrigado a ler uma mulherzinha que não conheço como nada dizer que milícia é mais nociva que o tráfico. oO

    Entre tráfico e milícia, não preciso nem pensar duas vezes para responder que prefiro milícia.

  12. Certamente é necessário que tenhamos a sensibilidade para perceber o ânimus de cada uma dessas infrações, que, não obstante tenham origem e motivos diferentes, não deixam de ser infrações.

    As “mílicias” e os “grupos de extermínio”, que a mídia insiste em representar como uma gangue de policiais que, unidos e planejados, criam uma organização para matar e extorquir, tem suas origens ou na desmotivação policial ou na incompatibilidade do indivíduo com a profissão. Sabemos que existem policiais corruptos, não organizados como diz a teoria da “milícia”, mas sabemos também onde está a geratriz desta corrupção.

  13. Tenente… o banner do Abordagem não tá levando ao blog, só faz abrir a imagem… Abraço!

  14. Com ctz a milicia nao eh a soluçao, mas colocar no mesmo patamar dos traficantes, nao da.

    Tanto eh q varios moradores querem q a milicia permaneça no morro. Claro que os moradores queriam mesmo que nao houvesse nem milicia e nem traficantes, mas entre um e outro, com ctz mais de 90% preferem os milicianos.

    Concordo que deve-se combater a milicia, mas na minha opiniao, antes de combater a milicia, deveriam se preocupar com os traficantes. O que adianta, tirar a milicia e 2 dias depois os traficantes tomarem o morro?

  15. Pois é, sabemos que é ilegal. Na hora de condenar a prática, as diferenças são irrelevantes. Mas o próximo passo deve ser o diagnóstico do câncer. Dizer soomente que é câncer e que o câncer mata não aumenta as chances de cura do paciente.

  16. [...] O Ten. Alexandre elenca em seu blog algumas semelhanças e também diferenças entre traficantes e a… [...]

  17. [...] quem aventura-se a lançar esse olhar de diferenciação, como eu, corre o risco de ser tachado como corporativista, ou leniente com os criminosos. Afinal eu sou PM [...]

  18. [...] sites da blogosfera policial já abordaram a questão, como o Diário de um PM e o Diário do Stive, levantando aspectos a serem considerados nos debates acerca das [...]

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