A maioria dos trabalhos científicos sobre as Polícias, como verificou a Dr. Jaqueline Muniz em uma de suas teses, reproduzem esta idéia de que elas “fariam parte de um conjunto bem articulado de aparelhos repressivos do Estado contra as aspirações da classe trabalhadora e pobre”.
Um discurso notadamente de esquerda, de inspiração marxista, endossado no meio acadêmico da década de 70. O modismo universitário da época era os pesquisadores darem a sua contribuição para a luta contra o regime militar, engajando-se em “uma visão crítica e comprometida com as causas populares”. Nos trabalhos que advieram, tudo se passa como se o mundo das ruas dramatizasse, através da oposição Polícia versus população, um roteiro já escrito da luta de classes.
Nestes discursos, a Polícia é apresentada como um dos instrumentos destinados a atender a um único e universal propósito: servir aos interesses dos poderosos (onde quer que eles estejam) e “fazer o serviço sujo”, oprimindo a classe pobre. E assim, simplesmente, se definem as missões e os objetivos das Polícias, comprometidas que estão com os grupos poderosos. As iniciativas policiais são interpretadas como derivadas das necessidades oportunistas do sistema capitalista, e ponto. Simples assim.
Ora, o que se entende por “Política de Extermínio da Pobreza”? Seria mais ou menos: ação do Estado para assassinar jovens negros e pobres, de forma seletiva, dirigida e planejada. A Polícia, simples apêndice do Estado, mero agente reprodutor, existiria para cumprir essa missão nefasta.
Acho que só uma vez ouvi coisa pior que esta. Foi quando um amigo meu me disse, e muito sério, que a vacina anti-gripal que é aplicada nos idosos faz parte de um malicioso plano do governo para exterminar os velhinhos e desafogar a Previdência. Vê se pode! E ainda citou fontes: sua irmã seria estudante de virologia, e teria professores que defendem a mesma tese. Putz!
Quem é o ingênuo aqui? Eu, por não conseguir acreditar num mundo político tão mal intensionado, ou eles, por propagarem tamanha Teoria da Conspiração?



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Muito bom De Sousa. Este texto reflete bem a idéia conturbada com a qual a sociedade visualiza o Estado. Quando confrontamos a relação da PMERJ com a sociedade, nós notamos um histórico de confrontos (refletidos no cotidiano da ditadura militar). A repressão a certos direitos exigido pelo Estado, fomentou essa aversão, a ponto de gerar (no futuro, em que vivemos) essas “teorias” absurdas.
Jacqueline Muniz… Já dizia um capitão, temos que lê-la.
Forte abraço, obrigado pelos comentários e pela ajuda. Respondi no meu blog:
” De Sousa: Eu mesmo fiz a imagem. Obrigado pelo apoio. E espero que o próximo post seja ainda melhor… rs”.
Teses como essa, é que nos dá o justo sentido da inversão de valores em que a sociedade está se inserindo. Quando se coloca a policia como um “adversário em potencial”, está se colocando de imediato, o delinquente, o traficante que faz benemerência na comunidade, como ìcones de legalidade e justiça social. Na verdade, o infrator se estabelece onde o Estado se omite. E ai vemos a criança começando como avião, soldado, mais tarde, gerente da “boca”. O Estado não cuidou no início, e no final quem vai cuidar é a policia. E é por isso que teses como a da Drª continuarão a fazer parte das bancas de doutorado da Universidades.
Muito bom texto, bem polêmico. A meu ver, a autora dessa tese só foi infeliz ao citar Marx, provavelmente ela nunca o leu e se deixou levar pelo estereótipo capitalista do marxismo. Ele defendia a transcendência do capitalismo pelo socialismo, através de uma transição política, pacífica e gradual. Em nenhum momento ele criticou a polícia ou as forças armadas, pelo contrário, frações do próprio exército russo se uniram a Lênin e Trótski anos depois. As revoluções armadas (e muito menos apologia ao crime) não partiram das suas idéias.
É senso comum que o Estado capitalista figura o controle de uma elite sobre o proletariado. Todo o capitalismo funciona através desse sistema de mais-valia. Sem a mais-valia, não existe lucro, e morre o sistema. Não podemos nos fazer de cegos, porque essa é a própria essência do capitalismo. E, sendo a polícia um aparelho estatal, ela serve ao ordenamento jurídico, legislado pela mesma elite. Ou seja, é o aparelho da elite, pela elite (como citou Hélio Luz no vídeo “noticias de uma guerra particular”, em que lembrava que as prisões em massa ocorriam nas favelas, e não na vieira souto, ou na delfim moreira).
O fato de sermos trabalhadores honestos e servidores públicos não nos dá o luxo de sermos politicamente cegos (até porque, nós mesmos somos parte do proletariado, apesar de servir o Estado). Nos dá sim, possibilidade de ter mais visão da realidade como ela é, e usar esse conhecimento a favor da sociedade (afinal, somos funcionários públicos) e não contra.
Devemos ter rancor dos moradores de comunidades sem nenhuma visão política por terem seus valores invertidos, sem nem o perceberem? Devemos ter rancor do Estado – e de todos os seus governantes – por funcionar da forma que o faz, protegendo a elite enquanto nos lança ao combate?
Creio que não. Se o fizéssemos, estaríamos incorrendo no mesmo erro que criticamos nos outros, e sendo tão injustos quanto muitos são para com a polícia. Criticaríamos o todo por causa de um ou outro indivíduo.
Meu apelo é: usemos o conhecimento para servir melhor, trabalhar melhor e com honestidade, usar a força quando necessário, porém abster-se dessa força quando – e contra quem – se fizer também necessário.
Abraços amigos, e parabéns, Alexandre, pelo tópico muito bem selecionado.
Por isso a criminalidade esta crescendo a passos largos ….. Muita teoria …
Abraço.
Dion:
Beleza, amigo? A “teoria” a que você se referiu trata apenas da conscientização de que a “elite” existe, e consequentemente, o ordenamento jurídico da elite, e o aparelho da elite. Não me refiro aos trabalhadores moradores do alto leblon não, mas a quem vive de capital, de investimento e de privatização. Quem herdou o Estado.
Não pense q eu tô do outro lado da cerca. Em nenhum momento defendi a criminalidade nem o “direito dos manos”, longe disso. O que eu acho é que o braço tem q atingir o marginal sim, mas o consumidor da droga também. E o colarinho branco.
Abraços.
Parabéns, meu caro.
Parabéns pelo Blog, pela formatura/ promoção e, em especial, pela vibração e vontade de melhorar a polícia brasileira.
Atitutes como a sua é que fazem a diferença na instituição, mas não se iluda, pois as barreiras que você vai enfrentar daqui pra frente muitas vezes vão parecer intransponíveis. E algumas realmente serão.
De qualquer forma, enquanto ainda sobreviver essa vibração, vale a máxima:
“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez.” – Jean Cocteau
Grande Abraço e à disposição aqui no DF e na Blogosfera da Seg. Pública.
Ferreira,
certo, esse tipo de abordagem das Polícias pela sociedade não é à toa, não “veio do nada”. São anos de acúmulo da violência, protagonizados inclusive pela Polícia Militar, da qual colhemos consequêcias, e assim continuaremos se as coisas não mudarem. Mas afinal, não é disso que tratamos todos os dias em nossas conversas? Mudança? Essa é a idéia, como vc já havia colocado no PM Utopia: entender o porquê da nossa situação e aí fazer algo para que mude. Estamos Juntos!
Abraço
Nelio,
De acordo. Quando o imaginário popular enaltece o bandido e hostiliza a Polícia, temos aí um grande problema! Inversão de valores, como vc diz. Porém, isso não surgiu do nada, não e verdade? Vc mesmo deu a dica de como isso foi ficar assim: “o infrator se estabelece onde o Estado se omite”. Nós (não em refiro só a policiais) devemos fazer a nossa parte e tentar refletir o porque disso, para daí tentarmos soluções que revertam esse quadro. Mudanças são almejadas não só pela sociedade, mas também pela Corporação (vimos isso no Seminário a Polícia que Queremos). Sei que vc sabe disso e faz sua parte.
Grande abraço
Naja,
Acho que não me fiz entender direito ao citar a Dra. Jaqueline Muniz. A tese dela não trata do assunto que falei neste post. Porém, em dado momento de sua explanação, ela relatou sua constatação de que os trabalhos científicos sobre Polícia tinham esse “pano de fundo obrigatório” de explicar Polícia e socidedade como se tudo se explicasse pela luta de classes. Por isso falei “de inspiração marxista”. Cá para nós, a crítica cai bem, porque duvido que todos os pesquisadores que sustentaram e sustentam essa tese leram Marx (Manifesto Comunista não vale). Bem, retirei a referência no final do texto e coloquei no meio, para não parecer que aquilo ali é o escopo da tese da Dra. Jacqueline Muniz.
Quanto a sua posição notadamente mais à esquerda, a respeito inteiramente. Quando vc fala
“sendo a polícia um aparelho estatal, ela serve ao ordenamento jurídico, legislado pela mesma elite. Ou seja, é o aparelho da elite, pela elite”
Respeito sua posição. Não teria argumentos fáceis e imediatos para refutá-lo. O que me custa acreditar, é no seu desdobramento paranóico, a “ação do Estado para assassinar jovens negros e pobres, de forma seletiva, dirigida e planejada”. Pelo amor de Deus! E é isso que vejo sendo propagado aos quatro cantos por ONGs, intelectualóides e pseudo especialistas, nas denúncias da “Política de Extermínio da Pobreza”.
Seu apelo não é somente seu apelo, mas de todos que estão comprometidos em algum grau com uma sociedade melhor. Vejamos:
“usemos o conhecimento para servir melhor, trabalhar melhor e com honestidade, usar a força quando necessário, porém abster-se dessa força quando – e contra quem – se fizer também necessário.”
Vc resumiu o norte que procurarei seguir nos meus próximos trinta anos de carreira. Cego é última coisa que gostaria de ser. Rancor é a última coisa que quero ter.
Obrigado mais uma vez por contribuir nas discussões dos tópicos.
Grande abraço
Sr. Tenente Cathalá,
Obrigado pelo apoio. Estou ciente das barreiras, que devem ser muitas, mas eu talvez não tenha mesmo idéia do quão difícil será. Somente na hora saberei.
Olha só, Jean Cocteau, não sabia que tinha um autor, rs. A repetia sem nem saber qum a tinha inventado.
Fico feliz que a blogosfera esteja crescendo. Ainda mais quando vi que o Diário de um PM foi linkado no Blog da Seg. Pública. Estamos juntos!
Abraço
De Souza:
“ação do Estado para assassinar jovens negros e pobres, de forma seletiva, dirigida e planejada”. Pelo amor de Deus! E é isso que vejo sendo propagado aos quatro cantos por ONGs, intelectualóides e pseudo especialistas, nas denúncias da “Política de Extermínio da Pobreza”.
Com certeza é ridículo, aliás, como muita gente sabe, várias dessas ONGs têm uma origem (e manutenção) duvidosa. O seu vínculo com os “direitos humanos” está muitas vezes além do limite do absurdo.
Quanto ao assunto do marxismo, houve realmente uma bagunça no nosso canal de comunicação. Como você colocou a referência da autora no fim do texto, eu achei que a citação de Marx tinha partido dela, e numa tese de mestrado, teria me incomodado.
A classificação de “inspiração” marxista que você colocou está correta. Como você mesmo levantou, muitos defendem essa posição (e na antiga união soviética vários líderes a deturparam, e outros tantos por ela morreram sem nem entender o porquê) sem conhecer os ideais. A minha intenção foi de ressaltar que existe essa diferença entre o marxismo real e essa metamorfose egoísta e ignorante que muitos esquerdistas criaram.
O que apenas me preocupou foi a questão da elite, e do capitalismo direcionado, que nós sabemos que existe.
Em suma, só quero deixar transparente que a teoria q defendo não trata de aliviar os marginais, mas de pressionar a todos que devem ser atingidos pela lei. Não quero fazer divagações aqui, até porque a proposta dos comentários não é essa.
“”Seu apelo não é somente seu apelo, mas de todos que estão comprometidos em algum grau com uma sociedade melhor”"
Exato. Eu tenho plena certeza de que tudo o que almejamos é mais fácil dito do que feito, mas cá estamos nós, somos presente e também possibilidade de futuro.
Grande abraço.
Ok Naja,
Acabamos descobrindo que estávamos falando da mesma coisa e concordando nas mesmas coisas. Sei que sua posição não é a de defender marginais, até porque se eu dissesse isso estaria sendo tão parcial quanto os que tratei de criticar no post. Concordo que criminoso é criminoso, seja o agente público, seja o traficante, seja o consumidor da droga, seja o colarinho branco.
Abraço.
De Sousa,
Um parêntese nessa discussão a cerca da “Polícia de extermínio da pobreza”, para te fazer uma pergunta. Você provavelmente já deve ter assistido ao vídeo – http://www.youtube.com/watch?v=swIfnmIHLYQ – do Roberto Requião desferindo grosserias a agentes penitenciários, não é?
De qualquer forma, dê uma passada no meu fotolog, propus uma discussão diretamente relacionada ao fato. Ou, também, no Blog do Ten. Cathalá, que foi o primeiro a publicar o ocorrido entre os blogs.
Abraços!
Tático,
Obrigado pela dica. Comentei, tanto no seu flog como no Blog da Segurança Pública.
Abraço.
Por nada!
Se você, por acaso, encontrar o vídeo inteiro, por favor me avise. Apaguei a atualização de hoje, irei pesquisar mais sobre essa história e ver do que se trata. Se realmente for o que mostra o vídeo, colocarei de novo.
De qualquer forma, aí vão algumas notícias que encontrei:
http://www.estadao.com.br/ultimas/cidades/noticias/2006/fev/06/249.htm
http://www.bonde.com.br/bondenews/bondenewsd.php?id=224&dt=20030904
http://www.pr.gov.br/seju/noticias_2006/not_15.html
http://www.tribunadaimprensa.com.br/anteriores/2006/novembro/17/porfirio.asp
Pô Tático, tirou a atualização?
Acho que não havia necessidade. Quando me referia ao contexto, não me referia à situação do vídeo em si, mas da forma como o pleito do aumento já poderia vir acontecendo, talvez de forma desgastante.
Vi outros vídeos que envolviam o Requião e percebi que ele é um cara muito estourado mesmo. Num dos vídeos, em que manifestantes o vaiavam, chegou a mandar que eles “enfiassem a faixa (faixa da manifestação) no rabo”!
Mas, como o Ten Cathalá deixou claro, a “notória descortesia” não é da nossa conta. O mais importante é como “as questões relativas à segurança são tratadas pelo governador” e a “diferença de tratamento entre as categorias”. Fica então registrada a crítica.
Históricamente reconhece-se que no Brasil a Polícia foi criada para defender os interesses dos poderosos. Não digo em exterminio dos pobres, mas com certeza sua opressão sim.
O problema é que Marx já morreu e foi para o inferno ha muito tempo, mas querem transportar a famigerada “luta de classes para a segurança pública. A esquerda brasileira possui tipos como Suplicy , Helio Bicudo e Padre lancelotti que sempre odiaram a policia e pintaram os criminosos como “vitimas da sociedade”. Na china comunista, traficantes e bandidos em geral são executados em praça pública. O socialismo brasileiro, quer flerta com PCC, Cv e FARC o é mais vagabundo do mundo.
Muita demagogia não?
Quanto a nobre Jaqueline Muniz,ela deveria ir fazer esse joguinho dela lá no Iraque…tão precisando muiiito de uma pessoa do tipo dela lá…e ai??? será q ela tem C…;Pra ir…. dúvido muiiito…é Mais Facil atirar pedras na Policia…
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