A partir deste ano, os alunos do terceiro ano da Academia de Polícia Militar D. João têm que apresentar um artigo científico como exigência de conclusão de curso. É uma fase de transição e experiência, para que, a partir do ano que vem, os alunos tenham que apresentar não mais um artigo científico, mas uma monografia.
O tema do meu artigo científico é “O Regime de Internato e sua Influência no Desempenho Escolar dos Alunos da Academia de Polícia Militar D. João VI”.
Este trabalho investiga a possível influência do regime de internato da APM D. João VI a partir das opiniões e depoimentos dos próprios alunos.
Foram realizadas quinze entrevistas com alunos dos três anos do Curso de Formação de Oficiais (seis do 1º ano, quatro do 2º ano e quatro do 3º ano). Os dados foram colhidos a partir das categorias “avaliação pessoal da validade do regime de internato na APM D. João VI” e “percepção da influência do internato no desempenho escolar dos alunos oficiais”.
Com esse dados em mãos, pude chegar a algumas conclusões muito interessantes. Por exemplo, foi possível traçar, um padrão de discurso de acordo com o ano do aluno oficial entrevistado.
Alunos oficiais do 1º são os que mais têm repulsa ao regime de internato
Os alunos oficiais do 2º e 3º anos destacaram os prós e os contras do regime de internato da APM D. João VI, ao passo que os alunos oficiais do 1º ano (com a exceção de um deles) somente destacaram os aspectos que para eles seriam negativos do regime de internato. Porém todos reconheceram a necessidade do internato, pelo menos num primeiro momento da vida escolar do aluno oficial: assim que entra para APM D. João VI até sua efetiva matrícula (período de adaptação).
Os alunos oficiais do 1º ano entrevistados foram os que mostraram maior repulsa ao regime de internato. Dos seis alunos do 1º ano entrevistados, apenas um mostrou uma visão positiva do internato, destacando a importância do regime para a homogeneização de um grupo que chega bastante heterogêneo (civis) e de fazer os alunos focarem sua atenção nos estudos.
Os alunos oficiais do 2º e 3º ano entrevistados destacaram como características positivas do internato, a capacidade do internato de trazer coesão ao grupo e de disciplinarização e seleção (os que não se adaptam pedem desligamento). Por isso, acham que o internato só seria valido no período da vida escolar do aluno oficial em que seriam importantes a disciplinarização e a seleção, notadamente a primeira fase de sua vida militar (a duração desta fase varia de acordo com o anos, veja seguir).
Opostos aos alunos do 1º ano entrevistados, os alunos do 3º ano foram os que mostraram menor repulsa ao regime de internato, de modo que é possível estipular o nível de repulsa ao internato numa graduação crescente que começa do 1º ano (maior repulsa), passa pelo 2º na (média repulsa) e vai até o 3º ano (baixa repulsa).
“Pimenta nos olhos dos outros é refresco”
É interessante notar que para os alunos entrevistados, a validade do regime de internato só cabe até o ano anterior ao seu. Os alunos do 1º ano entrevistados, de forma geral, acham que o internato só cabe no período de adaptação, e durante o resto do CFO deveriam ficar submetidos a um regime de semi-internato (licenciamento todos os dias da semana). Já os alunos oficiais do 2º ano entrevistados acham que o internato cabe ao 1º ano do CFO e o 2º e o 3º anos do CFO deveriam ficar submetidos ao semi-internato. Já para o 3º ano, o internato cabe tanto aos 1º e 2º ano do CFO, e somente o 3º ano deveria estar submetido ao semi-internato. Ou seja, para os alunos oficiais, “pimenta nos olhos dos outros é refresco”.
Para a maioria, o internato é “um mal necessário”
Nos entanto, todos os alunos oficiais ouvidos falaram do desconforto que é ficar de internato, mesmo os que falaram do regime de internato como algo necessário e estratégico para a Polícia Militar. Para os que viam o internato mais positivamente, ele é um “mal necessário”.
O Internato e o desempenho escolar dos alunos oficiais
Quanto à percepção dos alunos oficiais entrevistados a respeito da influência do internato no desempenho escolar, a crença de que o Internato seria capaz de fazer os alunos focarem-se mais nas atividades escolares, o que melhoraria o desempenho escolar dos mesmos, não foi unanimidade. Somente três, dos quinze alunos oficiais (um de cada ano), declararam que o internato influencia positivamente no seu desempenho escolar, porque permite que “se concentrem mais no estudo”.
Para nove dos quinze alunos oficiais, o internato teria o efeito contrário: atrapalharia a concentração dos alunos nas atividades escolares, pois o ambiente da APM D. João VI seria “estressante” e não era o ambiente mais favorável para um estudo com qualidade (o ambiente mais favorável eleito foi a própria casa). Outro argumento muito forte foi a questão do tempo. O aluno oficial num regime de semi-internato teria mais tempo para estudar, já que não estaria submetido ao cumprimento obrigatório dos horários relativos aos alunos de internato (jantar às 18h e revista do recolher às 20:00h) e poderia ser “senhor do seu próprio tempo”, fazendo a sua própria gestão do tempo, com flexibilidade e de acordo com suas próprias necessidades. Outro argumento apresentado foi que diante da impotência do aluno oficial para resolver seus problemas extra-muros ficaria com uma ansiedade tal que o impossibilitaria de concentrar-se nos estudos
Voltando a questão do tempo, ou da falta dele, apresentado pelos alunos que vêem o internato como um impecilho na busca pela qualidade dos seus estudos, foi um argumento apresentado por cinco dos seis alunos do 1º ano. A rotina incessante foi apontada como cansativa e desmotivadora para o estudo.
Dos quinze alunos oficiais, três não tomaram partido sobre a influência negativa ou positiva do internato no desempenho escolar. Disseram ser algo muito relativo e que dependeria mais da atenção e disposição do aluno para as atividades escolares do que propriamente do regime a que estão submetidos.
Todos os alunos oficiais que avaliaram a o regime de internato na APM D. João VI de forma positiva, quando inquiridos como o internato influenciou ou influenciaria no seu desempenho escolar, manifestaram-se com o internato influenciando de forma positiva. A mesma fidelidade de idéias aconteceu com os que avaliaram o internato da APM D. João VI de maneira negativa, que, quando inquiridos como o internato influenciou ou influenciaria no seu desempenho escolar, manifestaram-se com o internato influenciando de forma negativa. Somente para um dos entrevistados, um aluno oficial do 3º ano, o internato não influencia positivamente ou negativamente em seu desempenho escolar.
Considerações finais
Estes padrões de discurso de acordo com os anos dos alunos oficiais entrevistados apontam para uma comprovação da institucionalização crescente dos alunos oficiais no decorrer dos três anos e mostra a “evolução”, tida como “nível de amadurecimento”, no modo de ver o internato na APM D. João VI: conforme os anos passam, os alunos ficam mais afinados com o discurso oficial e, por isso, menos opositores ao regime de internato.











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Pois é. Na minha humilde opinião, o internato é ruim! Mas correr também é ruim. Tomar remédio também é ruim. ter que fazer artigo científico no feriadão também é ruim! (rs).
Um mal necessário? Talvez. Mas assim como dosamos a quantidade de remédio que vamos tomar, o ritmo e duração da corrida que vamos fazer e o tempo despreendido para elaborarmos um artigo cientifico a contento; devemos também fazer uma mediçaõ do tempo realmente necessário para que o “terrível” internato alcance os efeitos necessário e não desande.
Na última vez que estive de serviço na APM, tinha um tenente recém formado na polícia militar do DF, e ele me disse que lá (na APM deles) os alunos oficiais promoveram uma pesquisa, analisada e desenvolvida por psicólogos, que acompanharam a internato (anteriormente com duração de 1 ano) e chegaram a conclusão de que o ideial é 6 meses! (???)
Bem o porque disso eu não sei… Sou a favor do internato durante a adaptação e adaptação = a 3 meses! mas só saindo sabado de manha! É isso boa sorte com o seu artigo e segunda deixa eu dar uma lida hein! vlw!
Acredito que a diferença de opiniões entre os alunos do 1°, 2° e 3° anos do C.F.O, está na relação de quanto esses alunos vivem o internato. Sabemos, me refiro aos que passaram pela A.P.M/ESFO, que com o passar do tempo, o sistema de internato vai se alterando, se enfraquecendo, conforme mais liberações são cedidas.
Um aluno do 1° ano não tem vida mole, o internato é “Full”; já o aluno do 2° ano já passa a ficar mais relaxado com liberações extras e com um nível menor de cobrança; e por fim o aluno do 3° ano, que passa a conquistar um número ainda maior de liberações, depois o tão esperado externato e finalmente o “meio-expediente”. Com certeza o grau de repulsa ao internato irá variar de ano para ano.
Quanto ao ponto “pimenta nos olhos dos outros é refresco??? – isso se deve ao amadurecimento das idéias aplicadas diariamente na mente dos alunos-oficiais, que talvez consiga empurrá-los ao mundo da alienação. Pensem comigo, se fosse realmente bom recomendariam o internato para todos e não somente aos alunos mais modernos.
Deixo aqui uma sugestão ao desenvolvimento do seu artigo ciêntifico, entreviste também oficiais lotados na A.P.M e outros lotados em batalhões operacionais. Acredito que iria enriquecer o seu trabalho, mostrar idéias e opiniões de quem já enxerga o assunto com outros olhos.
Tente extrair o sentimento de “ranço” ou aquele velho discurso: “- Isso é tradição, não se pode mudar!”, muito típico no militarismo, dos depoimentos que conseguir.
Adianto que sou a favor do internato, porém não durante todo o c.f.o.
Belo artigo!
Também me interesso muito pelos assuntos relacionados ao “por que” do internato nas organizações militares. E tudo que já encontrei foi o básico de “fixar mais rápido a lavagem cerebral”. Não no sentido pejorativo, mas sim, no militar.
Vejo como único ponto positivo do internato os primeiros momentos como aluno oficial ou cadete. Seja você já militar ou vindo de um mundo civil, é necessário o famoso “choque” ou o simples “tirar da zona de conforto”.
O período inicial, para a grande maioria, o pior de todos, realmente serve para “separar o jôio do trigo” para selecionar quem realmente quer seguir a carreera militar, adentrar nesse mundinho tão fechado do militarismo.
O internato é bom para aprender os procedimentos corretos a serem adotados, ´para se acostumar com a rotina militar, aprender ordem unida, vivenciar o trabalho interno e externo… em fim, o mundo de caserna serve para você aprender a conviver(forçadamente) conforme o regularmento, as bases da disciplina e hierarquia.
O periodo de quarentena, 6 meses ou até mesmo 1 ano de internato(como é na maioria das academias pm e bm) não seria tão “remoso”. Mas 2 ou 3 anos de internato já seriam demais para quem já absorveu toda a rotina militar.
Estou sendo 1o ano pela 2a vez(ex-pm, agora bm) e não estamos de internato por motivos de não conclusão das obras.
Para mim que já era militar, a ausência de internato é boa. Para os que eram civis também(ou talvez não!)
Gostaria que me enviassem um e-mail me descrevendo como é na academia da polícia , se internato, se não ,e que nova mudança é essa e se vai vigorar realmente.Pois vou fazer a prova e gostaria de saber.Desde já agradeço..
Nem precisa, tem tudo aqui.
Gostaria que me enviassem um e-mail me descrevendo como é na academia da polícia , se internato, se não ,e que nova mudança é essa e se vai vigorar realmente.Pois vou fazer a prova e gostaria de saber.Desde já agradeço..
reisotero@yahoo.com.br
Nem precisa, tem tudo aqui.