Eu já havia publicado em novembro do ano passado um artigo parecido, “Repulsa à Goiabada e Querença à Porrada – Um Modo Particular de Adaptação ao Sistema de Distribuição de Recompensas e Castigos da Academia de Polícia Militar D. João VI”, num outro site. O artigo foi bastante mal interpretado, e, por isso, terei o cuidado aqui de republicá-lo com algumas modificações e adendos para que não hajam dúvidas quanto ao que se propõe.
Você já ouviu falar em psicologia reversa, a arte de se pedir o que não se quer? Alguns exemplos de psicologia reversa: Oração do Para-quedista, Antipropaganda da MTV espanhola, Campanha antitabagista da Secretaria de Saúde do México. Pois bem, é basicamente disso que este artigo trata. Uma tática simples para lidar com as dificuldades da vida. Mais precisamente, lidar com o rígido sistema disciplinar de uma academia militar.
A unidade que sirvo, Academia de Polícia Militar D. João VI, tem um sistema de distribuição de recompensas e castigos aos alunos que não é diferente nas outras academias militares.
De forma bem simplista, irei explicar este sistema a partir da idéia do que seria um aluno “padrão” (ou ideal). Para isso utilizarei as palavras de Goffman (1961/1987, p. 59), autor de Manicômios, prisões e conventos (2a ed., D. M. Leite, trad.). São Paulo: Perspectiva, estudioso do que ele denomina “Instituições Totais”: “é o convertido, que parece aceitar a interpretação oficial da equipe dirigente e procura representar o papel do internado perfeito (o convertido aceita uma tática disciplinada, moralista e monocromática, apresentando-se como alguém cujo entusiasmo pela instituição está sempre à disposição da equipe dirigente)“.
Quanto mais o aluno se aproximar deste padrão, presumivelmente mais colherá privilégios. Isso significa melhor classificação, melhor conceito com a Administração, elogios, melhores notas, etc. Quanto mais se afastar do padrão de “aluno ideal”, maior a possibilidade de ser castigado. Isso significa menor classificação, menor conceito, medidas restritivas de liberdade (licenciamentos sustados, detenções e prisões). Ou seja, para quem faz o “certo” a “goiabada”; para quem faz o “errado”, a “porrada”.
Saindo deste microcosmo e analisando uma sociedade mais ampla, iremos verificar que este sistema não é exclusividade das instituições militares. Está em nossa rotina durante todo o tempo. Seja em casa, no trabalho, no namoro, ou em qualquer outra esfera das relações humanas, nossas ações podem ser dignas de recompensa ou de punição. Desde a infância fomos moldados a fazer o “certo” em busca de recompensa e em fuga da dor. Em busca da aprovação dos nossos pais ou daqueles saborosos doces que eles prometiam, nós obedecíamos. E não havia escolha. Ou obedecíamos, ou éramos penalizados com uma bronca, umas palmadas ou um castigo restritivo de liberdade. Durante toda nossa vida fomos compelidos a satisfazer a expectativa da coletividade a que pertencemos para não sermos punidos com a desaprovação do grupo. Ou ainda, a expectativa da figura do chefe, do professor ou do líder.
O ser humano é assim, hedonista: busca o prazer e foge da dor, isto é fato. A querença à goiabada e a repulsa à porrada movem nossas ações e decisões, isso é lógico e facilmente identificável. Este é um princípio geral da natureza humana, que como todos os princípios gerais, admite exceções, mas se aplica à maioria dos casos. Aliás, este princípio é importante para a sobrevivência da raça humana, faz parte do instinto de auto-preservação.
Voltando a Academia de Polícia Militar D. João VI, como “estratégia adaptativa” (Goffman, 1961/1987, p. 59) a esta estrutura da instituição acadêmica, apresento neste texto um modo particular de adaptação: o caminho inverso da teoria hedonista. Algo extremamente difícil, pois buscar a dor em detrimento do prazer representa sacrifício e o sacrifício representa dor.
Em suma, é o seguinte:
- Não esperar privilégios e recompensas (esperar sempre o pior).
- Não temer o castigo (tornar nulo o efeito coercitivo da punição).
Por vezes, esta filosofia é mal interpretada como indisciplina e rebeldia, como se isso fosse desafiar intencionalmente a instituição. De fato, seguir esta tática adaptativa é estar acima do sistema e não estar sujeito a ele, psicologicamente livre das limitações que este lhe impõe. Porém, engana-se quem acha que isso é “bater de frente” com a equipe dirigente. Pelo contrário, este é o caminho para a materialização do tão sonhado e dito discurso oficial da “disciplina consciente”.
Segundo o discurso oficial da “disciplina consciente”, o aluno deve ser correto em suas atitudes e ações independentemente do que vai ganhar por sê-lo ou perder por não sê-lo. Ou seja, deve agir “certo”; não porque pode ser punido se não o fizer e nem por que pode ser recompensado por fazê-lo, mas por que têm caráter e conduta ilibada de tal modo que faz o certo simplesmente porque é correto fazê-lo.
Desde que comecei a usar a filosofia de “Querença à Porrada e a Repulsa à Goiabada” só lucrei. Tudo que vem é lucro, quando se espera sempre o pior. :)
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Obras de interesse:
BENELLI, Sílvio José . O internato escolar O Ateneu: produção de subjetividade na instituição total. Psicologia USP, São Paulo, v. 14, n. 03, p. 133-170, 2003.
GOFFMAN, Erving (1987). Manicômios, prisões e conventos (2a ed., D. M. Leite, trad.). São Paulo: Perspectiva.
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Eu gostaria de saber se quando entra nessa academia da policia existe um tempo de internação para adptação assim como no exercito?
Parabéns pelo blog!!!!
oi! olha só eu queria saber se as mulheres q passam para a academia ficam junto com o grupamento dos homens ou é separado???
muito obrigado!!!
Vanessa,
Sim, existe um periodo de adaptacao para os novos cadetes que chegam a APM, como no Exercito. Mas os 3 anos do curso sao em regime de internato.
E sim, as mulheres tem alojamentos separados dos homens.
Qualquer outra duvida eh so perguntar.
oi, sou eu denovo, eu queria saber qual o tempo exato dessa fase de adaptação?
Obrigada!!!!
O período de adaptação é desde o primeiro dia, quando o adaptando se apresenta na APM, até o dia do espadim (1º de maio).
Como o dia de entrada varia, é difícil dizer exatamente qual o tempo exato, mas é mais ou menos 1 mês.
Eu, por exemplo, entrei dia 1 de abril. Minha adaptação foi de exatamente 1 mês.
O dia da apresentação varia porque o vestibular da UERJ é sempre sujeito a bastante alterações, geralmente por causa das greves.
Espero ter sanado sua dúvida.
Bom texto. É como disse Gonçalves Ribeiro: “Para quem nada espera, o pouco muito representa.”
Com certeza, existe uma diferença enorme entre se submeter cegamente ao sistema, e estar mentalmente acima do sistema, porém desperto com relação aos próprios valores e ainda assim aceitar esse sistema como instrumento necessário.
Naja,
Vc não sabe como fiquei feliz com seu comentário. Finalmente tenho a certeza de que alguém pode entender o texto.
Dá até pra perceber a minha preocupação, logo no início, de ele ser mal interpretado – como de fato já foi.
Vc pegou toda a essência do artigo em poucas linhas:
“existe uma diferença enorme entre se submeter cegamente ao sistema, e estar mentalmente acima do sistema, porém desperto com relação aos próprios valores e ainda assim aceitar esse sistema como instrumento necessário”
Obrigado!
Lí o artigo e me enxerguei na repulsa à goiabada e querença à porrada.
Desde o CFO, até hoje.
Exelente! Você deu cientificidade a uma praxis que eu já executava. Agora tenho o devido aporte teótico.
Boa tarde.Gostaria de informações sobre a idade para ingressar no oficialata da PMERJ.A idade de trinta(30),é anunciada nos editais.Existe a possibilidade dessa idade ser aumantada???? Parabéns pelo site!!!! Obrigado pela atenção.
P.S. Se possível,enviar comentários para meu e-mail